jump to navigation

Carnaval fantasma fevereiro 22, 2007

Posted by Melissa Quintanilha in divagacoes, saudade, viver nos EUA.
trackback

Nossa, ainda bem que chegou a quarta-feira de cinzas. Posso afirmar, agora com certeza, que o carnaval é a época mais difícil de passar. É a única época do ano em que o MSN fica às moscas, ninguém troca mensagens no orkut e não chega praticamente e-mail algum. Nesse carnaval eu me senti sozinha e percebi como o mundo virtual ocupa uma parte importante da minha vida. Percebo agora que recebo um carinho enorme do mundo virtual e viver sem isso aqui é difícil. Ainda bem que é só no carnaval.

Ontem eu nem passei aqui pra agradecer. O VP disse que eu vôo sobre a vida. Mas ontem uma das minhas asas falhou. E eu dei aquelas titubeadas que antes eram tão frequentes e agora passam a ser mais ‘controláveis’. Me fez parar pra pensar que eu, definitivamente, não me adapto à cultura americana. E juro que já tentei.

Aos 16 anos – quando vim fazer intercâmbio em Washington – eu queria ser como um deles. Queria ser cheerleader da escola, queria me vestir como eles, falar como eles. Se alguém desconfiava que eu não era americana, eu levava pro lado pessoal. Eu tentei entrar nos grupos. Tentei ir nas festinhas. E terminei indo passear no shopping sozinha, indo ao cinema sozinha, passando horas a fio escrevendo cartas para os amigos no Brasil (sim, pasmém! Eu não tinha acesso à internet naquela época. Mandava cartas e falava somente com meus pais durante 30 minutos nos domingos). Comi também uns cookies extras. Na verdade, vários cookies extras, que me deram 13kg a mais em um ano. Eu fazia contagem regressiva na agenda para voltar pro Brasil.

“Nossa!”, vocês devem pensar, “deve ter sido a pior experiência da vida dela.”
E eu digo que foi a pior sim. Mas também foi a melhor. Pela primeira vez na vida eu tive que lidar com sofrimento e privações. Aos 16 anos eu estava longe da minha zona de conforto: casa, cidade, idioma, família, amigos e namorado. Como eu amadureci nessa época! E é por isso que faria tudo de novo. Tanto que fiz…

Depois de formada na UFRJ, surgiu a oportunidade de ir trabalhar na Siemens em New Jersey. Eu tive uma experiência sofrida no intercâmbio mas não pensei duas vezes antes de fazer minhas trouxinhas e me jogar no mundo novamente. E lá fui eu sofrer de novo. Fiz poucos amigos (quase todos estrangeiros), me identifiquei cada vez menos com a cultura americana, mantive muitos amigos virtuais, passei muitas noites em casa vendo DVD e dessa vez consegui engordar só 5kg e emagrecer tudo antes de voltar. E quando eu imaginei que aos 25 anos eu passaria um ano inteiro sem dar um beijo na boca? Pois é, haja motivação. Ainda tirei forças (não sei de onde) no meio do inverno para correr atrás e conseguir o mestrado e bolsa na Ohio State. O maior sonho da minha vida estava ali na minha mão: em 2005 eu ia começar meu mestrado em Ohio. Aquele período em New Jersey foi difícil, mas valeu a pena e me fez evoluir. E como!

Recarreguei as energias durante 2 meses no Brasil antes de me mudar novamente. Voei para NJ e fui dirigindo 10h sozinha até Ohio. Cheguei lá cheia de esperança. Morava em um quartinho mas via aquilo como meu apartamento. O mestrado me triturou no primeiro ano. Como eu ralei! Noites durante a semana, fins de semana inteiros, madrugadas… Só fazia trabalhar e estudar. Tinha um grupo legal de amigos mas que ainda não rolava identificação máxima. E também pela minha carga de trabalho, acabava passando mto tempo sozinha fazendo projetos. O primeiro ano acadêmico cansou. Cansou tanto que até cansei do quartinho e resolvi procurar um apê. Foi uma das melhores coisas que fiz. Minha vida já melhorou muito ali. Minha casa é uma das coisas que mais amo em Ohio. Conheci a Rô e o Zé durante o verão. Fui vejelar!!! Quem diria que eu iria velejar em Ohio? Trabalhei durante o verão, fiz um dinheirinho, mobiliei a casa, comprei meu laptop, recebi meus pais. O 2º ano letivo começou e eu sofri horrores com a ameba! Nossa! Pra quem achava que estava ok de desafios, veio um ainda maior. Foi o projeto mais desafiador que fiz na vida. E consegui!

Em dezembro fui ao Brasil e vivi uma história inesperada que por si só me mostrou tanta coisa que já valeu a pena. Volto para Ohio no maior esquema “chega de sofrer” (parecendo aqueles anúncios de igreja evangélica). O quarter seguinte na faculdade já rolou bem melhor com direito a tempo para projetos, tempo para pesquisas e noites bem dormidas. Eu nem lembrava como era viver assim – como gente.

Tudo bem, a minha asa deu umas falhadas esse mês e em alguns momentos eu não quis agradecer por nada. Mas lendo a história que eu acabei de escrever, já mudo de idéia. Tenho muito à agradecer. Como ouso achar que não tenho nada para dizer “obrigada” num dia? Estou vivendo com muitas privações? Sim. E como! Como eu gostaria de estar numa cidade viva, me identificando com a cultura e com as pessoas, cercada de amigos, família e com um namorado me amando muito. Queria tudo isso sim. Pra ontem, se possível. Mas eu tô correndo atrás de um objetivo e entendo que o meu caminho fui eu que escolhi e por ele devo passar. E eu vou passando com persistência e paciência para colher os frutos depois.

No final o tempo dá todas as respostas.

***
21/02: Sou grata por… conseguir perceber o motivo das coisas serem como são.

22/02: Sou grata pelo… carinho virtual que recebo diariamente na minha vida. Tem sido muito importante.

Anúncios

Comentários»

1. Va - fevereiro 22, 2007

Mel,
Simplesmente lindo o seu texto! Entendo o que vc passa, entendo as privacoes, mas quando estou triste penso que estou aqui pq foi o caminho que escolhi, ninguem me obrigou a vir e nem me obriga a ficar. Vim pq acredito que esta temporada aqui sera muito boa para as nossas vidas.
Forca! E me add no msn, eu tb estava online no carnaval.

Beijos,

2. renata re - fevereiro 22, 2007

amigona

força na peruca!
tamu juntu!

Nada é por acaso e vc daqui a pouco vai aproveitar tudo!

super beijo e qq coisa me manda email ou chama meu love no msn se eu não estiver heheheh

beijocas

3. Alejandro - fevereiro 23, 2007

Amor..

Quando lhe conheci não sabia que por trás daquela menina linda, com aparência frágil, de tão delicada e serena que era.. Tinha uma mulher tão forte, tão decidida e corajosa. Hoje, sou grato por me mostrar mais uma de suas inúmeras qualidades, mulheres como você é que revolucionam o mundo e dão beleza e inteligência a história.
Minha vida passou a ganhar mais força, mais objetivo.. .. Mais sentido, com vc..
Beijos.
Alê.

4. VP - fevereiro 23, 2007

Eu disse e continuo dizendo que você voa. E saiba, só cai quem voa, só fraqueja quem peleja, só erra quem tenta, só chora quem sente.

Tenho orgulho de ter você entre minhas amigas.

5. Ana Paula Soldi - fevereiro 23, 2007

Oi, cheguei no teu blog através de um comentário seu em outro blog, gostei muito vou te visitar mais vezes. beijos

6. Claudia Beatriz - fevereiro 23, 2007

Mel, sofrimento infelizmente faz parte das nossas escolhas. Algumas são indolores, outras não. Mas como você disse, vc tem um objetivo e isso é o que importa. Eu estou estes anos todos longe do meu filhote e você nem imagina a dor que é isso pra mim… mas o lance é tentar fazer do limao a limonada e tirar o melhor que esse país pode te oferecer. Torço sempre por você.. e muito… pra que vc encontre principalmente serenidade… o seu amor e o seu lugar. E sim, carnaval é dificil, com todo mundo longe… MSN vazio… mas passa viu só? Conserta a asinha ai, que vc é mesmo como disse o VP voa..

7. Leonardo - fevereiro 24, 2007

Gozado isso, não é Mel?? Eu tenho a mesma sensação de deslocamento, de ser outsider, de não gostar e nem querer gostar que você tem em relação aos USA, só que no meu caso é em relação à Québec e, pasme, ao Brasil! 😦

Mas cada um é soma de suas experiências e eu consigo entender muito bem que tanto Québec quanto o Brasil possam ser o paraíso de muuuuita gente. Cada um com sua história.

Um beijo,

8. Thelma - fevereiro 24, 2007

Puxa, Mel, depois de ter lido seu texto fiquei muito pensativa quanto a minha situação aqui no Canadá. Também não estou me identificando com esse país e os dias tem sido difícies mas como o Leonardo bem falou, aqui é o paraíso pra muita gente e sou uma felizarda por poder estar aqui. Ah, mas como é difícil, viu? Às vezes me pergunto se fiz a decisão certa mas sei que estou lutando por um futuro melhor. E é isso que me faz seguir…
Beijocas

9. Janaina - fevereiro 25, 2007

Oi Mel,
As vezes para mim tb é dificil essa coisa de adaptação. Eu ate coloquei na minha listinha dos desejos ter uma amiga de verdade americana. Eu fico vendo mulheres da minha idade com filhos pelos shoppings e elas parecem ser tao amigas. Fico so lembrando das amigas que deixei no Brasil e como sinto a falta delas.
Mas a vida é assim mesmo e para conseguirmos o que queremos sempre teremos que passar por momentos dificeis. Um dia da caça ou do caçador.
Eu estou fazendo uma força tremenda para gostar de Princeton, mas esta dificil…
Bjs


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: